Quinta-feira, 24 de Junho de 2010
O Vaso Sanitário

Não existe no mundo civilizado quem não conheça o vaso sanitário, uma peça de louça com a boca em formato oval, usada pelas pessoas para urinar e evacuar. Artefato indispensável em residências, escolas, bares, restaurantes, clubes ou quaisquer outros locais onde homens, mulheres ou crianças se agrupem, sua história está intimamente ligada à necessidade que tem o ser humano de eliminar os resíduos sólidos ou líquidos dos alimentos que ingere, coisa que ele não consegue evitar, por mais que tente. O ato de livrar-se dos dejetos sólidos é hoje um procedimento que o cidadão realiza a portas fechadas, às escondidas, longe de olhares indiscretos, valendo-se, para isso de lugares apropriados conhecidos como privadas, latrinas, fossas sépticas e outros mais.

 

Mas nem sempre foi assim. Nos primórdios do mundo nossos antepassados usavam qualquer lugar para livrar-se do que o intestino de cada um não queria mais, desde as moitas que os escondiam de olhares curiosos, até um simples buraco cavado no chão. Somente no terceiro milênio antes de Cristo foi que os banheiros no interior das casas começaram a surgir, o que ficou comprovado através de vestígios dessas construções encontrados em escavações arqueológicas feitas em cidades localizadas no oeste das terras que formam a Índia de hoje. A civilização de Harappa, que floresceu por volta de 2.500 a.C. no vale do Indo, principal rio do Paquistão atual, estendendo-se por mais de 1,5 milhão de quilômetros quadrados, já dispunha de latrinas com água corrente e ligadas a canais construídos com tijolos, integrando um sistema sanitário que incluía câmaras e bueiros. Mas os que delas se serviam precisavam se agachar para satisfazer, de cócoras, suas necessidades fisiológicas. Cabe ao Egito, por volta de 2100 a.C., a primazia do surgimento das primeiras latrinas usadas por pessoas sentadas, criando um padrão empregado até hoje. Depois disso, segundo acreditam os pesquisadores, foram os habitantes da ilha de Bahrein, no Golfo Pérsico, que inventaram, cerca de mil anos depois, um mecanismo pioneiro de descarga hidráulica.

 

No Ocidente, porém, a história do banheiro teve uma evolução bem diferente. Na Grécia do século 5 a.C., por exemplo, as residências não contavam com toaletes e os gregos preferiam mesmo era se aliviar ao ar livre. Isso ainda ocorria na Roma do início da era cristã, quando também era comum o uso de penicos. Mas, se não gostavam de banheiros privados, os romanos adoravam fazer suas necessidades em construções comunitárias anexas a termas, e para isso implantaram banheiros públicos, associados às casas de banho. Era costume entre eles promover debates, banquetes e encontros cívicos em latrinas coletivas, instaladas em grandes bancadas de pedra sob as quais passavam os canais de água corrente, usados para carregar os dejetos até rios distantes (na ilustraçãouma dessas instalações).

 

Na Roma antiga, os banheiros públicos, além de servir para reunir pessoas, também eram freqüentados tanto por homens como por mulheres, embora não existam registros históricos precisos que apontem se essas latrinas lado a lado eram compartilhadas por usuários de sexos diferentes. O que sabe é que como nos banheiros primitivos  não havia  preocupação em se  oferecer aos  freqüentadores material para higiene íntima, não havia outro recurso, portanto, senão os “aliviados” se limparem com o que estivesse à mão, como água, grama e até areia! A expansão do Império Romano levou esse conceito do banheiro público a outras partes do mundo antigo. Mas, quando a grande potência se enfraqueceu, a partir do século 5, esse tipo de construção caiu em desuso.

 

Como se vê, esvaziar o intestino e a bexiga nem sempre foi um procedimento tão confortável para os humanos quanto atualmente. Isso porque os toaletes improvisados no meio do mato, os buracos cavados no chão, os urinóis e comadres, só começaram a ficar para trás quando o escritor e poeta inglês João Harrington (1561-1612), afilhado da rainha Elizabeth I, também conhecida como Isabel I (1533-1602), esboçou um modelo de vaso sanitário semelhante ao que é utilizado hoje. Sua obra (sem trocadilho) foi colocada no palácio real depois que ele convenceu a madrinha a se acomodar confortavelmente nos momentos em que o intestino a avisava que ”tinha que ser naquela hora, senão...”.

 

Mas apesar da aprovação real, a disseminação do invento de Harrington só ocorreu anos depois. Em 1668, quando o Comissariado de Polícia de Paris, na França, emitiu um decreto determinando que todas as casas construídas na cidade deveriam ter, a partir dali, um banheiro dentro de casa, foi que o vaso sanitário começou a se popularizar na Europa. Cem anos depois (1778), foi a vez de Joseph Bramah (1748-1811), mecânico e engenheiro inglês, inventor, entre outras coisas, de uma prensa hidráulica, criar a bacia sanitária com descarga hídrica, cuja utilização, porém, ficou restrita a hospitais e residências nobres. Quanto ao papel higiênico, ele só seria inventado em 1857, nos Estados Unidos, por Joseph Cayetty, que pela primeira vez lançou no mercado esses rolos de papel macio.

 

E foi em função do uso da água que a partir desse ponto o vaso sanitário tornou-se objeto de primeira necessidade dentro de qualquer casa, porque o sistema que conhecemos por descarga elimina os dejetos por meio de sucção, levando-os para a rede de esgoto. Sem trabalho e sem sujeira. Dos tempos da coroa até hoje, a privada foi sendo aperfeiçoada para garantir o conforto de quem a utiliza, e seu formato e material – a cerâmica – é praticamente o mesmo em qualquer lugar do mundo. Em meados de 2007 o museu Gladstone Pottery, na cidade britânica de Stoke-and-Trent, elaborava projeto para organizar e inaugurar exposição permanente do que será chamado de “celebração da história do vaso sanitário”. Neste espaço se pretendia mostrar aos visitantes como “era a vida no banheiro dos nossos antepassados que viveram antes da invenção da privada com sistema de descarga”, recriando-se, inclusive, o autêntico fedor vitoriano a partir de aromatização química.

fonte:www.fernandodannemann.recantodasletras.com.br



publicado por adm às 23:13
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